Chuva de Sangue

            Numa noite fria, a chuva pesada encharca as roupas de Sobecky enquanto ele fica em frente a um mercado, ou o que sobrou dele. O local é um cenário desolador, tudo destruído, de portas até prateleiras. Comida espalhada por todo o lugar. E, no meio desse caos, dois corpos num lago de sangue.

            “O que aconteceu aqui?” diz Sobecky.

            “O que aconteceu, você pergunta. O inferno aconteceu,” responde uma voz vindo detrás dele.

            “Quem é você?” diz Sobecky, se virando para encarar o desconhecido.

            “Só um velho. Tenho vivido nessa rua por anos.”

            Sobecky encara o velho, o analisando do pé a cabeça. O velho está vestindo roupas maltrapilhas e tão velhas quanto ele, e parece fraco e cansado. Porém, em meio a um corpo sujo brilham olhos faiscando inteligência. “Você viu o que aconteceu aqui?”

            “Infelizmente, sim. Eu vi tudo.” O velho faz uma pausa e olha nos olhos de Sobecky. “Mas antes de lhe dizer, quero ouvir sua história.”

            “Isso só lhe fazer me odiar,” diz Sobecky.

            “Não importa. Quero saber como você está relacionado a esta tragédia.”

            Sobecky suspira e olha para o céu, enquanto gotas de chuva caem sobre seu rosto. “Ok… Você terá sua história.” Ele encara o velho e diz, “Primeiramente, eu sou da polícia, e trabalho no setor de homicídios. Encontramos corpos por toda a cidade com sinais de tortura e alguns até de estupro. Mas o pior é que era que todas as vítimas eram crianças.”

            “Eu ouvi sobre isso. Desgraçado doente,” o velho diz, balançando a cabeça.

            “Por meses, o psicopata não deixou qualquer pista. E não estávamos fazendo progresso. Até que ele cometeu um pequeno deslize,” Sobecky diz, levantado o dedo indicador. “Encontramos seu carro, bem aqui, na frente deste mercado.” Ele aponta para um local sob um poste, as marcas do pneu ainda visíveis.

            “E ele deixou uma pista dentro do carro,” conclui o velho.

            “Exato. Ele deixou um fio de cabelo.”

            “Você o pegou.”

            “Foi o que pensei também. Mas isso não terminou bem.”

            “E, porque não?”

            “Porque o fio de cabelo era do filho de Lúcio Sonabolro, Carlos.”

            “O bilionário…” diz o velho de olhos arregalados.

            “Sim, o homem mais poderoso do país. Eu não preciso dizer que ele tem muitos amigos, incluindo na polícia, né?”

            “Uhum. O que você fez depois dessa descoberta?”

            “Um homem de terno veio até mim, alguém da administração que eu nunca tinha visto. E, ele me fez uma proposta…” diz Sobecky, encarando o chão, sua respiração ficando mais pesada.

            “Que proposta?”

            “Se eu parasse a investigação, eles me pagariam o valor que eu quisesse. Mas se eu recusasse, eles iriam atrás da minha família. Eu não preciso dizer o que escolhi, preciso?” ele diz com um sorriso triste, lágrimas misturadas com chuva caindo pelo seu rosto. “Mas nós ainda precisávamos de um culpado. Então culpamos o dono deste mercado, o Sr. Rodriguez.”

            “E, porque ele?”

            “De acordo com o homem de terno, ele era o bode expiatório perfeito. Ele é imigrante, latino e não pode pagar um bom advogado. As pessoas acreditariam facilmente nisso.”

            “Você destruiu a vida de um homem inocente para proteger a si mesmo e àquele riquinho de merda,” diz o velho, franzindo o cenho e cruzando os braços.

            “O que eu deveria ter feito?” diz Sobecky. A imagem de sua esposa e seu filho na praia, na última férias deles, vem a sua mente. E então essa imagem fica preta, e ele vê o Sr. Sonabolro sorrindo e falando, ‘Eu prefiro ser o Diabo a deixar meu filho ser preso. E você não quer que sua família encontre o Diabo, quer?’ Suas mãos tremem, sua respiração fica mais pesada seus olhos se enchem de lágrimas. Ele fecha os olhos e coloca suas mãos no rosto para se acalmar.

            “A coisa certa,” diz o velho.

            “Eu não tinha escolha.”

            “Continue mentindo para si mesmo. Isso não aliviará o peso de seu erro. Quando eu lhe disser o que aconteceu aqui, você entenderá,” diz o velho, colocando o dedo no rosto de Sobecky. “Como você deve saber, esse caso alimentou um forte sentimento de ódio e vingança na população. Então, depois que o Sr. Rodriguez foi preso, eles queriam mais, eles queriam vingança. Consequentemente, uma noite eles vieram e destruíram o mercado, não satisfeitos, eles invadiram casa do Sr. Rodriguez no andar de cima. Depois, arrastam a esposa e filho dele e os espancaram até a morte, sob gritos de ‘escória’, ‘monstros’, e ‘vocês nunca deveriam ter saído de seu país de merda’. A polícia nunca veio.”

            Sobecky cai de joelhos, temendo, e grita o mais alto que pode, um grito de dor capaz de partir o coração até do mais frio dos homens. Lágrimas caem enquanto ele olha para aqueles corpos. “O que eu fiz?” ele diz, esmurrando o chão. Mas poderia ser minha família em da dele. Ele se esmurra. O que estou pensando? Pessoas inocentes morreram de um jeito terrível por minha culpa. Mas eu não posso ir contra o Sr. Sonabolro, ou minha família será a próxima. Ele olha para o velho, lágrimas ainda caindo, sua voz falhando, e diz, “Velho, o que devo fazer?”

            “Isso é algo que você deve descobrir por conta própria.”

            “Entendo… Obrigado por ouvir esse pecador miserável,” diz Sobecky “Você pode ir agora.”

            “Tudo bem. Boa noite, filho.” O velho se vira e desce a rua, mas após alguns passos, ele ouve um tiro. Ele para e se vira, e agora há três corpos e o sangue misturado com a chuva desce rua abaixo. Ele suspira e continua seu caminho, guardando mais um segredo daquela rua que ninguém mais saberá além do velho Amon.


Imagem retirada de: https://pixabay.com/illustrations/glass-drip-rain-handprint-bloody-975494/

Alexandre Souza

Alexandre Souza é um escritor brasileiro que escreve historias sombrias e sobrenaturais, e também explora fantasia e ficção histórica. Ele está adquirindo um Bacharelado em Belas-Artes em Escrita Criativa na Full Sail University. Ele têm contos publicados na Adelaide Magazine e na Scarlet Leaf Review. Ele é um apaixonado por mitologia e pelo sobrenatural, e usa isso para aprimorar seu trabalho.

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