Depressão

            Bem, decidi estrear essa categoria com um assunto bem complicado, mas igualmente necessário. Essa provavelmente é a primeira vez que falarei abertamente esse tema com pessoas fora do meu círculo mais próximo de convivência. Mas como disse acima, eu acredito que falar sobre depressão ė crucial para a luta contra a mesma. Eu acredito que ao expor aqui como lidei e superei essa doença, eu posso ajudar pessoas que estejam passando pelo que eu passei alguns anos atrás. E não, não quero bancar aqui o herói ou o detentor da solução suprema, eu só quero ajudar relatando como eu enfrentei essa situação. O que funcionou para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Mas o foco aqui não é a solução em si. E sim mostrar que, por mais difícil que seja enxergar isso do fundo do poço, a depressão pode ser vencida.

            Vamos começar pelas “causas”, entre aspas porque a depressão é multifatorial e muitas vezes não tem uma causa clara. Mas quero que vocês entendam o contexto da minha situação, para ficar mais claro o que estava passando pela minha cabeça naquele período. Um dos fatores mais influentes foi o fato de eu estar perdido. Perdido em todos os aspectos possíveis dessa palavra, eu não sabia que curso eu queria fazer, muito menos a profissão que queria seguir. Além de estar perdido em relação a minha sexualidade, aos meus relacionamentos (incluindo os familiares), e a minha própria identidade.

Além disso, estava havendo uma desestruturação familiar naquela época, que começou bem antes, na verdade, com a separação dos meus avós maternos (resultado das traições de meu avô) . Esse fato desencadeou um processo bastante destrutivo que tem efeitos até hoje, vide como minhas tias têm problemas de cunho psicológico e emocional até hoje. Com o tempo eu comecei a enxergar como minha família tinha problemas, como ser maçã podre era regra e não exceção, tendo em vista as situações envolvendo meus avôs, os irmãos de painho, primos de mainha, entre outros.

         Fora toda essa situação, ainda havia o bullying que tinha sofrido ainda criança, trauma este que nunca tinha resolvido. E que inclusive foi uma das causas de eu ser até hoje uma pessoa desconfiada, fechada, e na defensiva. Até porque meu “melhor amigo” da época em vez de me ajudar, me extorquia dinheiro em troca de proteção; difícil confiar nas pessoas depois de tudo isso, né? Isso para citar algumas situações que influenciaram na crise depressiva que tive em 2017. E foi neste ano que veio a gota d’água que fez tudo isso transbordar e quase me afogar no processo.

Em 2017, eu estava cursando Medicina na FPS (Faculdade Pernambucana de Saúde). Teoricamente, era para estar tudo bem, pois desde criança que eu falo em ser médico. Então era para eu estar realizando um sonho de criança, e estar bem feliz com isso. Mas não foi isso que aconteceu. Quando comecei a cursar, até estava motivado no início, mas logo percebi que aquele não era o curso para mim, e que eu não queria ser médico coisa alguma. O impacto que essa descoberta teve é difícil até de descrever, foi como se o maior sonho da sua vida fosse uma grande ilusão, e você só percebeu isso tarde demais. Lidar com isso e com a pressão das expectativas de todos que me rodeavam foi o “golpe fatal”. A partir daí foi só ladeira abaixo, a depressão veio com tudo e parecia que não seria vencida.

Agora vamos para os efeitos da depressão na minha vida. O primeiro foi uma desmotivação crescente para tudo, até para viver, e isso consumia minha energia cada vez mais. Até chegar no ponto em que eu não saía do meu quarto, nem para ir para a faculdade (eu iria reprovar por falta, diga-se, mas tranquei no final do primeiro período). Eu só ficava na cama, encarando o teto por horas, no máximo ouvindo alguma música. Só saía do quarto para comer e para ir ao banheiro, e falava com ninguém, parecia um fantasma (eu passava o dia inteiro sem ver meus pais e meu irmão).

         A pressão para que eu pelo menos frequentasse as aulas existia, mas eu simplesmente não me importava. Eu me sentia um inútil, um fracasso que anda e fala, e que só era um peso para todos ao meu redor. Inclusive, é bom esclarecer uma coisa: depressão não tem tanta relação com tristeza, mas muito mais com o sentimento de vazio. Você não fica necessariamente triste, mas vazio, desmotivado, sem rumo.

O momento mais crítico da minha depressão ocorreu quando eu ainda cursava na FPS. Meus pais não fazem ideia desse evento, só alguns amigos próximos sabem disso. Bem, certo dia eu novamente não tinha ido à faculdade, então foi me dada a missão de ir buscar meu irmão no colégio (acho que ele estudava no GGE). Como eu tinha ficado toda a manhã na cama, meu cabelo estava uma bagunça e não tinha tempo nem vontade de arrumá-lo, então fui ao quarto dos meus pais para pegar um boné. Fui até o closet deles, lá havia um móvel no centro do cômodo com várias gavetas, na última gaveta ficavam os bonés.

Sendo que quando abri essa gaveta e a vasculhei em busca de um boné que eu curtisse, eu acidentalmente encontrei uma arma que meu pai tinha na época. E bem, uma arma na mão de um depressivo é um perigo. Lembro desse dia até hoje de forma bem clara, eu peguei aquela arma, ela estava fria ao toque, e fiquei a encarando em minhas mãos, surpreso pelo peso que tinha. Então, uma ideia começou a crescer na minha mente, como se um pequeno demônio sussurrasse insistentemente em meu ouvido, de que eu poderia acabar com todos os meus problemas ali mesmo. Por eu acreditar que era um peso na vida dos outros, especialmente dos meus pais, eu achei de verdade que se eu não mais existisse seria melhor para todos.

Eu sabia que ninguém viria tão cedo, morávamos em uma casa de primeiro andar; Daurinha (doméstica) e Joacir (caseiro) estavam embaixo na cozinha, meus pais no trabalho, e meu irmão no colégio. Eu peguei a arma e a coloquei na boca, mirando-a contra o céu da boca. Coloquei o dedo no gatilho e fechei olhos. No entanto, eu tirei forças sabe-se lá de onde e afastei a arma, minha respiração pesada, meu coração enlouquecido. Guardei a arma e nunca mais voltei a abrir aquela gaveta (só muito tempo depois, já livre da depressão). Até hoje tenho aversão profunda a armas, não gosto nem de ver, muito menos tocar. Esse evento me acordou para o fato de que eu precisava de ajuda, mas ainda assim só a busquei meses depois (pura teimosia).

            Durante todo o processo, meus pais e meus amigos tentavam desvendar o que estava rolando na minha cabeça, mas eu não me abria de maneira alguma (principalmente com meus pais). Em determinado momento comecei a me abrir com meus melhores amigos, Ricardo e Gustavo, e eles me ajudaram muito. No começo eu negava que precisasse de ajuda profissional, dizia que conseguira me resolver sozinho (óbvio que não conseguiria).

A virada de chave veio quando finalmente tomei a decisão de procurar um psicólogo, nessa época já era o 2o semestre de 2017 e eu já havia largado a faculdade. O engraçado é que essa decisão veio de um bait (“mentirinha”) de Ricardo. Ele simplesmente disse um duas que já havia marcado com a psicóloga dele, Sophia, um horário para mim e que eu tinha que ir agora. Aquilo meio que me deu uma chacoalhada e eu decidi que eu iria. Falei com ele e disse que eu iria, aí ele me respondeu que tinha sido um bait, que ele não tinha marcado coisa alguma (kkkkkkkkkkkkkk, ai Jesus, esses meus amigos…), mas iria marcar de verdade agora.

            Ir para Sophia foi o divisor de águas, me ajudou muito a reconquistar minha mente e meu emocional. Já lhe adianto que procurar ajuda profissional é crucial para se lidar com a depressão. Um olhar de fora e de alguém que entende profundamente a mente humana é fundamental para guiá-lo para fora desse redemoinho emocional. Outra coisa, dentro da Psicologia existem diversos tipos de abordagens, métodos, e estilos. Se você for a um psicólogo e não gostou, tente um com uma abordagem diferente (Sophia usa o método junguiano) até achar um que mais lhe agrade.

Agora, tenha em mente que você precisa expor toda a verdade para o profissional, mesmo que isso seja bastante desconfortável, para que assim ele/ela possa lhe dar o melhor diagnóstico e tratamento (você não esconde os sintomas de um médico, o mesmo vale para um psicólogo). No meu caso, expor minhas fraquezas, inseguranças, e problemas, me ajudou encarar frente a frente minhas sombras e consequentemente domá-las.

            Um exemplo de como ir a uma terapia psicológica ajudou foi como meu relacionamento com meus pais melhorou exponencialmente. Antes, eu era muito fechado com eles, não permitindo que eles soubessem o que eu estava passando. Depois de algumas sessões com Sophia, eu comecei a me abrir mais com eles e hoje em dia falo praticamente sobre tudo com eles (seja para buscar orientação, seja só para eles tomarem conhecimento do que está havendo). O mesmo aconteceu com meus amigos, primeiramente com Gustavo e Ricardo. Eu fui aos poucos me abrindo mais com eles e tem certas coisas que só essas duas criaturas sabem sobre mim (e a recíproca é verdadeira). E digo-lhes com convicção que ter pessoas com quem eu pudesse confiar e conversar abertamente foi de suma importância para minha recuperação.

Com o tempo eu fui resolvendo meus problemas internos, um a um. Passei a confiar um pouco mais nas pessoas (principalmente nas mais próximas de mim), mas sem ser demasiadamente inocente (porque já basta de ser trouxa). Eu criei um conceito de família que consiste em meus pais e meu irmão; deixo o resto de fora ate eles reconquistarem minha confiança.

Eu passei a lidar melhor com meus “fracassos,” até porque a vida não é feita só de vitórias, não é mesmo? Temos que aprender a encarar as derrotas também, e aprende com elas. Dessa maneira a ideia de eu ser um completo inútil foi se esvaindo aos poucos. Aceitei também o fato de que eu estava errado sobre Medicina, e que não há problema algum nisso. Começou então minha busca pelo curso ideal e pela profissão certa, o que levou mais 1 ou 2 anos, até finalmente eu decidi seguir a carreira de escritor. Mas isso fica para outro post (este já está longo demais).

Enfim, depois de 1 ano fazendo terapia, eu decidi não ir mais, pois não sentia mais necessidade. Agora, isso foi uma decisão muito bem pensada, demorei uma semana ou mais para toma essa decisão com total convicção. Não deixe de ir ao psicólogo no primeiro impulso, espere e veja se isso realmente é a melhor escolha. Uma coisa é certa, depois de toda essa experiência lidando com a depressão, hoje eu me conheço muito mais profundamente do que antes. Além de ter um domínio mental mais, digamos, eficiente. É difícil de eu me abalar, mas quando acontece eu sei lidar com isso com tranquilidade.

         Passei a aceitar meus sentimentos mais abertamente, antes eu era meio o “cara impassível, frio e calculista.” O que era uma grande mentira, eu agia como não sentisse coisa alguma, mas eu sentia tudo. Eu mentia tão bem em relação a isso que até eu cheguei a acreditar que eu não tinha sentimentos. Hoje, independente do sentimento, eu o vivo como ele deve ser vivido (eu amo, eu sorrio, eu choro, eu me irrito…).

Outra coisa, hoje eu coloco novos desafios e objetivos para eu seguir me motivando a ir cada vez mais longe. Por exemplo, além de concluir meu curso (Escrita Criativa), eu pretendo terminar um projeto de um livro até o ano que vem. Além, é claro, de seguir alimentando este blog com conteúdos interessantes. E eu faço tudo isso com convicção e confiança. Aonde quero chegar é que se você me dissesse 3 anos atrás que eu seria tão confiante e tranquilo, eu riria da sua cara, pois naquela época isso era algo impensável. Ou seja, quando estamos no fundo do poço é muito difícil enxergar a luz, a superfície, mas ela está lá, nos esperando. “Só” precisamos alcançá-la.

Agora, para fazê-lo você precisará de ajuda, alguém que lhe jogue uma corda e lhe puxe para fora do poço. Então, o primeiro passo é reconhecer o problema, e o segundo é procurar ajuda. E dessa forma você ira aos poucos melhorar, e quando der por si, a tempestade já passou, e um belíssimo arco-íris se estende a sua frente. Mas, como eu disse na introdução, o foco desse post não é dar uma “solução magica”, até porque o que funcionou para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Mas sim, mostrar através da minha história que por mais assustadora e opressora que a depressão seja, ela pode ser derrotada. Eu escrevi esse post para dar esperança, para jogar um pouco de luz em quem há muito está envolto em escuridão. E eu espero de verdade que eu tenha ajudado ao menos um pouco.


P.S.: Se voce quiser conversar sobre algo relacionado a esse tema, ou até mesmo desabafar, pode me contactar pelos comentários, pela seção de Sugestões, ou pela redes sociais expostas na seção Sobre o Autor.

Imagem tirada de: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Po%C3%A7o_Quinta_da_Regaleira_(7).jpg

Alexandre Souza

Alexandre Souza é um escritor brasileiro que escreve historias sombrias e sobrenaturais, e também explora fantasia e ficção histórica. Ele está adquirindo um Bacharelado em Belas-Artes em Escrita Criativa na Full Sail University. Ele têm contos publicados na Adelaide Magazine e na Scarlet Leaf Review. Ele é um apaixonado por mitologia e pelo sobrenatural, e usa isso para aprimorar seu trabalho.

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