Amor e Chá

            A Lua crescente e um poste eram as únicas fontes de iluminação na encruzilhada onde Judas aguardava por alguém, esfregando as mãos e olhando ao redor. O vento frio se esgueirava por dentro do seu sobretudo marrom. Ele tinha a barba bagunçada e olheiras.

            “Olá, querido,” disse uma voz vindo detrás dele. Judas se virou e deu de cara com um homem vestindo um terno preto e camisa vermelha.

            Lúcifer se escorava numa bengala preta com uma caveira no topo. “Como este humilde filho de Deus pode ajudá-lo?”

            “Eu preciso da sua ajuda com problemas amorosos,” disse Judas.

            “Oh. Então, perguntou para a pessoa certa… Diabo, que seja. Amor é minha especialidade.” Lúcifer então bateu no chão com a sua bengala, e uma mesa apareceu. Sobre a mesa estavam dispostos um bule de chá, branco com anjos vermelhos pintados nele, e duas xícaras com o mesmo design. “Por favor, sente-se,” ele disse, apontando para uma cadeira vazia em frente dele.

            Judas assentiu em silêncio e se sentou na cadeira, e Lúcifer se sentou no lado oposto da mesa.

            “Chá?” Lúcifer disse, servindo-o. “Então, querido. Qual o nome?” Ele cruzou as pernas e segurou a sua xícara com a sua mão esquerda.

            “Me chamo Judas,” Judas disse, bebendo o chá com as suas mãos tremendo.

            “Judas… Esse nome traz-me memórias, boas memórias,” Lúcifer disse, rindo. Ele deu um gole do seu chá. “Quem é a sortuda?”

            “O nome dela é Maria. Ela é uma amiga minha.”

            “Entendo. E você quer que ela seja mais que uma amiga.”

            Judas assentiu. “Quero que ela me ame.”

            Lúcifer bebeu o resto do seu chá e colocou a xícara de volta na mesa. “Eu não posso forçá-la a amar-te.”

            Judas se levantou, derramando chá sobre a mesa. “Por que não? Você é a porra do Diabo.”

            Lúcifer o encarou, olhos ficando vermelho. O poste apagou-se, e uma nuvem negra cobriu a Lua. “Cuidado com o que fala, garoto.” Ele bateu no chão com a sua bengala. A mesa e as cadeiras desapareceram, e um buraco negro abriu no seu lugar. Do buraco saíram criaturas negras como petróleo com distorcidas formas humanas. Elas foram até Judas e o agarraram.

            “O que são essas coisas?” disse Judas, tentando afastar as criaturas.

            “Sombras. Elas alimentam-se de sentimentos negativos,” disse Lúcifer, assistindo à cena impassivelmente.

            “Me ajude.” Judas caiu, e as sombras o arrastaram em direção ao buraco.

            “Isso é o que amor forçado faz. Ele torna-se uma obsessão.” Lúcifer apontou para as sombras com a sua bengala. “E obsessão leva a um final trágico.”

            “Eu entendo. Só, por favor, me ajude!” disse Judas, tentando se segurar no chão, mas chegando perigosamente perto do buraco.

            “Eu não sei se você entendeu de verdade,” disse Lúcifer, fazendo uma expressão pensativa.

            “Eu entendi. Juro!” As pernas de Judas entraram no buraco. Ele quase não conseguia se manter fora dele. “Eu faço o que você quiser!”

            “Fechado.” Lúcifer bateu no chão com a sua bengala mais uma vez, e as sombras, e o buraco desapareceram, deixando Judas deitado no chão.

            Judas se levantou, ofegante. “Eu vou, agora.” Ele virou-se para ir embora.

            “Não tão rápido, querido.” Lúcifer segurou os ombros de Judas. “Fizemos um acordo, e você irá pagar por ele agora.”

            Judas se virou de volta para Lúcifer, com as pernas tremendo. “O que você quer?”

            “Os seus sentimentos,” Lúcifer disse, tocando o peito de Judas com a sua bengala.

            Uma luz vermelha brilhou da ponta da bengala, cegando Judas. Ele recuou alguns passos e disse, “O que você fez comigo?”

            “Eu esvaziei o seu coração, pobre criatura.”

            “O que isso significa?”

            “Isso significa, humano estúpido, que você não irá sentir sentimento algum,” Lúcifer disse, rindo. “Você não sentira ódio, felicidade…” Ele sorriu. “… ou amor.” Ele bateu no chão mais uma vez e desapareceu. O poste reacendeu, e a Lua estava visível novamente. Depois de alguns minutos encarando a Lua com uma expressão vazia, um Judas perdido deixou o local.

            Mais tarde na mesma encruzilhada, Lúcifer apareceu em frente de Maria e disse, “Está feito. Ele não irá machucá-la mais.” Ele sorriu, e falou olhando nos olhos dela, “Quem diria que você teria coragem de matar o padre.” Lúcifer gargalhou. “Vocês humanos são criaturas curiosas.”

            Maria permaneceu em silêncio, encarando o chão. Repentinamente, uma tempestade se formou, trovões e relâmpagos rasgando o céu.

            Lúcifer olhou para cima e sorriu. “Mas aparentemente meu pai não gostou tanto do nosso acordo.”

            Maria levantou os olhos, assustada. “O que Ele vai fazer?”

            “Comigo, nada. O que Ele pode fazer? Me condenar ao Inferno?” Ele riu. “Mas no seu caso…” Ele se aproximou de Maria, e passou a mão pelos cabelos dela. “Ele vai te jogar diretamente no meu colo.”

            “Não!” Maria disse, os olhos arregalados e o desespero evidente na voz. “Por favor, eu faço qualquer coisa.”

            “Querida, isso está fora do meu controle,” Lúcifer disse, dando de ombros. “Eu não sou o juiz, apenas o carrasco.” Ele apontou para o céu. “Você vai ter que se resolver com o Senhor das tempestades ali.” A tempestade se intensificou ainda mais.

            Maria caiu de joelhos, tremendo. “Não! Eu não quero isso! Não é justo!”

            “Bem, meu trabalho aqui está feito.” Ele olhou para o céu e depois de volta para Maria. “Boa sorte.” Ele sorriu. “Você vai precisar.” Com isso ele desapareceu.

            Maria alisou os hematomas deixados por Judas, lágrimas se misturando com a agia da chuva. Ela segurou o crucifixo e encarou o céu tempestuoso. “Pai, me perdoe.” Mas a tempestade estava longe de terminar em sua vida.


Imagem de: https://pxhere.com/pt/photo/423386

Alexandre Souza

Alexandre Souza é um escritor brasileiro que escreve historias sombrias e sobrenaturais, e também explora fantasia e ficção histórica. Ele está adquirindo um Bacharelado em Belas-Artes em Escrita Criativa na Full Sail University. Ele têm contos publicados na Adelaide Magazine e na Scarlet Leaf Review. Ele é um apaixonado por mitologia e pelo sobrenatural, e usa isso para aprimorar seu trabalho.

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