Exu

            O primeiro post sobre mitologia iorubá não podia ser de ninguém a não ser Exu. Assim como nas tradições africanas se faz oferenda primeiro a ele, antes de fazê-lo aos outros orixás, aqui ele será o primeiro orixá homenageado do blog. Antes de começar, quero fazer uma pequena observação, estarei tratando aqui do orixá Exu e não das entidades espirituais Exu. São coisas completamente diferentes, o primeiro é um orixá (“deus africano”) do panteão iorubá, já os outros (também chamados de Exus da Umbanda ou catiços) são espíritos que auxiliam em trabalhos espirituais, muitos deles já viveram no nosso plano (já encarnaram) e hoje estão num nível de luz diferente do nosso. Tendo feita essa separação, posso prosseguir.

            Exu é o orixá mensageiro, responsável pela comunicação entre orixás e humanos. Ele é ainda o dono das encruzilhadas e o guardião da porta de entrada da casa. É também chamado de Lagba, Bará (nome no batuque do Rio Grande do Sul, onde Exu é o nome utilizado na quimbanda, que acredita-se trabalha para o mal), e Eleguá (nome na santeria cubana, onde Exu fica mais relacionado aos aspectos mais negativos do orixá). Sem Exu não há movimento, mudança, trocas comerciais ou reprodução. Além disso, ele foi erroneamente identificado pelos europeus como o “Diabo” (puro suco de preconceito).

Exu e As Encruzilhadas

Oxalá e Exu

            Existem muitos e muitos contos sobre Exu, mas eu selecionei quatro que representam bem a importância e personalidade desse orixá. O primeiro relata como Exu ganhou o poder sobre as encruzilhadas.

            Há muito tempo, Exu não tinha riqueza, nem profissão, nem missão, nem nada. Ele só vagabundeava pelo mundo sem rumo. Então certo dia, ele passou a ir à casa de Oxalá (Grande Orixá, criador do homem, senhor absoluto do princípio da vida) todos os dias para assistir a ele fabricando os seres humanos. Outros viam visitar o velho orixá, mas ficavam pouco tempo e logo partiam sem nada terem aprendido. Eles traziam oferendas, viam Oxalá, apreciavam sua obra e logo partiam. Apenas Exu permanecia.

            E assim ele ficou por dezesseis anos (número sagrado para os iorubás), prestando cuidadosa atenção na modelagem. Ele aprendeu como Oxalá fabricava cada parte dos homens e das mulheres. Durante todo esse período ele ficou lá, ajudando o velho orixá. Sem fazer perguntas, apenas observando atenciosamente em silêncio, e assim ele aprendeu tudo (para os iorubás esse era o perfil do aluno ideal).

            Certo dia, Oxalá lhe disse para postar-se na encruzilhada por onde passavam todos que vinham a sua casa. Ele deveria ali permanecer e não deixar passar quem não trouxesse uma oferenda a Oxalá. Isso porque havia cada vez mais humanos para Oxalá fazer, e ele não queria perder tempo recolhendo os presentes que lhe eram oferecidos. Ele nem sequer tinha tempo para visitas.

            Por ter aprendido tudo, Exu pode ajudar o velho orixá. Ele coletava os ebós (oferenda) para Oxalá, recebia e entregava as oferendas a Oxalá. Exu fazia tão bem seu trabalho que o velho orixá decidiu recompensá-lo. Daquele dia em diante, quem viesse a casa de Oxalá teria que pagar também alguma coisa a Exu, assim como quem estivesse voltando da casa de Oxalá.

            Dessa maneira, Exu mantinha-se sempre a postos, guardando a casa de Oxalá. Armado com um ogó (poderoso porrete), afastava os indesejáveis e punia quem tentasse burlar sua constante vigilância. Exu trabalhava demais e fez da encruzilhada a sua casa. Agora Exu passou a ser o senhor das encruzilhadas e ninguém pode passar por uma sem lhe pagar alguma coisa.

Exu Se Torna O Decano Dos Orixás

Ecodidés, as penas vermelhas

            Exu era o mais novo dos orixás e assim sendo devia reverência a todos eles, sendo sempre o último a ser cumprimentado. Mas ele almejava a senioridade para assim ser homenageado pelos outros orixás. Para consegui-lo ele foi se consultar com o babalaô (adivinho e sacerdote de Orunmilá, orixá do oraculo) que lhe disse para fazer sacrifício. Exu deveria oferecer três ecodidés (penas do papagaio vermelho), três galos de crista gorda, mais quinze búzios e azeite de dendê e mariô (folha nova da palmeira).

            Exu fez o ebó e foi instruído pelo adivinho a pegar um dos ecodidés e usá-lo na cabeça, amarrado na testa. E que assim ele não poderia usar qualquer outra coisa na cabeça. Certo dia, Olodumare (Deus Supremo, também chamado de Olorum e Olofim) convocou todos os orixás para saber se eles estavam dando conta das missões a eles atribuídas na Terra. Oxu, a Lua, foi buscá-los.

            Todos os orixás se preparam para esse grande evento, preparando oferendas, e fazendo suas trouxas, seus carregos, para levar para Olodumare. Cada um foi a audiência com uma trouxa de oferendas na cabeça, exceto Exu, pois ele estava usando o ecodidé, e com ecodidé não se pode levar nenhuma carga no ori (cabeça). Ele estava de cabeça descoberta, sem gorro, coroa, chapéu ou carga. E assim, Oxu levou todos até Olodumare. Quando chegaram ao Orum (céu, mundo dos orixás; cada um dos nove mundos paralelos da concepção iorubá) de Olodumare, todos se prostraram.

            Olodumare nada precisava perguntar, pois, o que queria saber, ele lia na mente dos orixás. Ele então disse que aquele que usa o ecodidé foi quem trouxe todos a ele. Que todos trouxeram oferendas menos Exu. Que Exu respeitou o tabu e não trouxe nada na cabeça. Olodumare afirmou que Exu estava certo, pois havia acatado o sinal de submissão, e por ter respeitado o euó (tabu) passaria a ser seu mensageiro. A partir daquele momento, tudo o que quisessem de Olodumare, deveria ser mandado dizer através de Exu. Além disso, Olodumare determinou que por conta de sua missão, Exu deveria ser homenageado antes dos mais velhos.

            E assim o mais novo dos orixás passou a ser o primeiro a receber os cumprimentos e a ser homenageado. Exu havia se tornado o decano dos orixás. Uma curiosidade é que nas tradições iorubás, os filhos de Exu são proibidos de levar qualquer coisa na cabeça. Além disso, quem usa o ecodidé no ritual de iniciação do candomblé também não pode usar nada na cabeça por um certo tempo.

Exu Come Tudo

Exu

            Exu era o filho caçula de Iemanjá (na África, orixá do rio Níger; no Brasil, senhora do mar; mãe dos orixás) e Orunmilá, irmão de Ogum (orixá da metalurgia, da agricultura e da guerra), Xangô (orixá do trovão e da justiça) e Oxóssi (orixá da caça). E ele comia de tudo, sua fome era incontrolável. Ele comeu todos os animais da aldeia em que vivia. Comeu ainda os cereais, as frutas, os inhames, as pimentas. Bebeu toda a cerveja, aguardente e vinho. Mas quanto mais comia, mais fome sentia.

            Primeiro, ele comeu tudo de que mais gostava, depois começou a demorar as árvores, os pastos, e ameaçou engolir o mar. Furioso, Orunmilá percebeu que Exu não pararia e poderia comer até mesmo o Céu. Ele então pediu a Ogum que detivesse o irmão a todo custo. E para preservar a Terra, os seres humanos e os orixás, Ogum matou o irmão.

            No entanto, nem a morte aplacou a fome de Exu. Mesmo depois de morto, era possível sentir sua presença devoradora, sua fome infinita. Os pastos, os mares, os poucos animais que restavam, as colheitas, e os peixes iam sendo consumidos. Os aldeões não tinham mais o que comer, e após todos adoecerem, iam morrendo de fome um a um.

            Um sacerdote da aldeia, então, consultou o oraculo de Ifá e alertou a Orunmilá que Exu mesmo em espírito estava pedindo sua atenção, era preciso aplacar sua fome. Orunmilá obedeceu ao oráculo e determinou que daquele dia em diante, para que Exu não causasse mais catástrofes, sempre que fizessem oferendas aos orixás, deveriam em primeiro lugar servir comida a ele. Para haver paz e tranquilidade entre os homens, é preciso dar de comer a Exu, em primeiro lugar.

            Este é um dos contos que explica o porquê em todas as cerimônias do candomblé, Exu é sempre o primeiro a receber homenagens e oferendas.

Exu e Os Dois Amigos

O chapéu de Exu

            Mas da mesma forma que Exu é benevolente e ajuda aqueles quem lhe respeitam e prestam as devidas homenagens, ele também é bastante rigoroso e incisivo em suas punições. Este último conto é um exemplo do que acontece ao se provocar a fúria desse orixá.

            Dois amigos camponeses acordaram bem cedo para trabalhar em suas respectivas roças. Entretanto, ambos haviam deixado de louvar Exu, mesmo este sempre lhes dando chuva e boas colheitas. Exu ficou furioso e decidiu punir a dupla. Ele vestiu um chapéu pontudo, de um lado branco e de um lado vermelho, e caminhou na divisa das rocas dos dois amigos, tendo um à sua direita e outro à sua esquerda.

            Passou entre os dois amigos e os cumprimentou enfaticamente. Os dois camponeses se entreolharam confusos. Um falou, “Quem é o estrangeiro de chapéu branco?”.

Já o outro perguntou, “Quem é o desconhecido de chapéu vermelho?”.

            “O chapéu era branco.”

            “Não, era vermelho.”

            E assim eles começaram a discutir sobre a cor do chapéu do desconhecido (jogar um contra o outro é uma das artimanhas de Exu). A discussão evoluiu para uma briga com golpes de enxada, e eles acabaram matando-se mutuamente. E assim Exu estava vingado. Em outra versão os dois amigos não se matam, mas são julgados pela briga pelo rei.


Fonte:

  • Prandi, R. (2001). Mitologia dos Orixás. São Paulo, SP: Companhia das Letras.

Imagens:

Alexandre Souza

Alexandre Souza é um escritor brasileiro que escreve historias sombrias e sobrenaturais, e também explora fantasia e ficção histórica. Ele está adquirindo um Bacharelado em Belas-Artes em Escrita Criativa na Full Sail University. Ele têm contos publicados na Adelaide Magazine e na Scarlet Leaf Review. Ele é um apaixonado por mitologia e pelo sobrenatural, e usa isso para aprimorar seu trabalho.

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