Chuva Herege

A chuva caía forte fora deste castelo do século XVI com sua arquitetura gótica, onde a Inquisição espanhola mantinha seus prisioneiros até que confessassem suas heresias, em alguns casos, sob tortura. Esse era o caso de três prisioneiros que tentavam escapar, caminhando silenciosamente pelos corredores escuros do castelo. Um deles era Vano, um Romani com pele morena, cabelo e barba escuros. Os outros dois eram um comerciante judeu, David, e uma velha parteira, Beatriz. Ao longo de seus corpos havia marcas visíveis de correntes em seus pulsos e pés, cicatrizes de chicotes em suas costas, cicatrizes de queimaduras em várias partes de seus corpos.

“David”, disse Vano, “como você convenceu aquele soldado a abrir nossa cela?”

“Ele também é judeu”, disse David com um sorriso triste.

“E como você saberia disso?”

“Ele me mostrou sua estrela de David.”

“Silêncio”, disse Beatriz, “vem alguém.”

Eles entraram em uma sala escura para esperar até que o caminho estivesse livre novamente.

“Ai, meu Deus”, disse Beatriz, abafando a voz com a mão.

“O quê?” disse Vano, virando-se. Então ele entendeu a reação dela, eles entraram em uma sala de tortura – ferramentas para estrapada, cavalete e outras torturas, todas manchadas de sangue, vômito e urina. O cheiro de sangue, suor e mijo dominava a sala. Manchas de sangue velho e recente pintavam as paredes e o chão, uma macabra decoração que combinava com a intenção da sala. Um grande saco marrom descansava num canto da sala, um cheiro terrível emanava dele, e uma pequena poça de sangue se formou ao seu redor – nenhum dos três teve coragem de ver seu conteúdo.

“Vamos sair daqui,” disse Vano, abraçando Beatriz trêmula, “vai ficar tudo bem. Eles não vão mais machucar você.”

“O caminho está livre”, disse David olhando pela porta entreaberta.

Então, eles deixaram a sala e continuaram seu caminho. Eles chegaram a uma escada em espiral no final do corredor. Enquanto desciam, David disse: “Quais são os seus planos para quando deixarmos este lugar? Vou encontrar meu filho, Tobias, e nunca mais voltar para a Espanha.”

“Vou apenas manter minha vida nômade em outro país,” respondeu Vano.

“Não sei, filho”, disse Beatriz, “vou apenas tentar me manter viva. Estou muito velha para aventuras.”

“Não seja assim, Bêa”, disse David. Ele pensou em silêncio por um momento e disse, “Olha, não sei o que vai acontecer, então vou lhes dizer onde escondi minha fortuna. Ouçam com atenção.”

***

Eles finalmente deixaram o castelo por um pequeno portão nas costas, uma floresta escura cercava o lugar.

“Agora, vamos ouvir…” um tiro de mosquete interrompeu a fala de Beatriz. Ela caiu com sangue escorrendo de suas costas, os olhos arregalados de choque.

Vano olhou para as paredes e viu soldados lá em cima, apontando seus mosquetes. “Corra, David! Corra!” Ele agarrou o braço do amigo, arrastando-o na direção da floresta. Os tiros atingiam o solo ao redor deles enquanto tentavam alcançar a floresta.

A tempestade piorou quando Vano e David correram para a floresta, o trovão abafando seus passos no solo lamacento. Eles correram por alguns minutos quando ouviram o primeiro latido.

“Cães de caça!” disse David, os olhos cheios de terror.

“Continue correndo,” disse Vano.

Vano olhou para trás e viu os cães se aproximando, seguidos por soldados com mosquetes. Ele tentou correr mais rápido, suas pernas queimando com o esforço e sua respiração ficando mais pesada. De repente, ele ouviu um estalo e um grito.

David tropeçou em uma raiz e caiu, o gosto sangue e lama se misturando em sua boca. Antes que Vano pudesse reagir, um cachorro saltou sobre David, mordendo o braço que ele ergueu para se defender. David deu uma última olhada em Vano e gritou, “Corra!” Essa foi sua palavra final antes que os outros cães o alcançassem. Eles morderam tudo, arrancando pedaços de seus braços, pernas e torso.

Com lágrimas nos olhos, Vano continuou correndo, assombrado pelos gritos do amigo, que terminaram poucos minutos depois. Um tiro atingiu uma árvore próxima a ele, logo após ele passar por ela. Ele olhou para trás e viu que seus perseguidores estavam se aproximando. Ele tentou aumentar sua velocidade ainda mais, tentando desesperadamente colocar alguma distância entre eles, mas seu corpo já estava no limite.

Então ele alcançou um penhasco. Ele correu até a borda e viu que um rio passava por baixo, a correnteza correndo furiosamente por causa da tempestade. Bem alto, mas posso sobreviver. O barulho dos passos de seus perseguidores estava se aproximando. Ele precisava tomar uma decisão.

Então ele saltou, pouco antes de os primeiros soldados chegarem ao penhasco. Ele caiu na água tempestuosa, lutando para não se afogar. Um tiro passou perto de seu rosto, cortando-o um pouco. Os soldados estavam tentando atirar nele do penhasco com seus mosquetes. Vano decidiu se esconder embaixo d’água, prendendo a respiração o máximo que pôde enquanto os tiros atingiam a água ao seu redor. Mas enquanto o rio o carregava, ele saiu do alcance dos soldados.

Os soldados tentaram encontrá-lo durante o dia, mas nunca encontraram nenhum vestígio. Eventualmente, eles consideraram que Vano estava morto.

Depois disso, ninguém mais ouviu falar do Romani Vano. No entanto, um novo comerciante viajante chamado Tobias foi visto vendendo seus produtos na região, seguindo para a França.


Imagem: https://pxhere.com/pt/photo/1023271

Alexandre Souza

Alexandre Souza é um escritor brasileiro que escreve historias sombrias e sobrenaturais, e também explora fantasia e ficção histórica. Ele está adquirindo um Bacharelado em Belas-Artes em Escrita Criativa na Full Sail University. Ele têm contos publicados na Adelaide Magazine e na Scarlet Leaf Review. Ele é um apaixonado por mitologia e pelo sobrenatural, e usa isso para aprimorar seu trabalho.

Deixe uma resposta

Voltar ao topo
pt_BRPortuguês do Brasil
%d blogueiros gostam disto: