Está Tudo Escuro

Eles estavam sempre lá, aqueles demônios, me olhando através do espelho. Não importava se era de manhã cedo com o Sol pintando o céu com tons de vermelho ou se era noite, e a lua, e as estrelas apenas quebravam o domínio da escuridão. Eu os chamei de demônios, mas eles eram mais como sombras, e todos pareciam uma versão deformada de mim mesmo.

Uma era minúscula como uma chihuahua com olhos grandes e deformados e falava da minha covardia. Outra tinha buracos vazios em vez de olhos e falava sobre como eu estava perdido. Outra era como uma versão minha de 200 anos com uma corcunda nojenta e braços deformados, e ele me lembrava de como eu era um fardo para os que me cercavam. E havia outras, e cada uma era tão bizarra quanto a outra e responsável por me atormentar em um determinado assunto.

No entanto, havia uma sombra em particular que era pior que as outras. Estava sempre no meio do espelho, com os outros ao redor. Era a maior fonte do meu tormento e era a coisa que mais odiava no mundo, minha nêmesis. Sua voz poderosa era ouvida entre os murmúrios dos demônios, e se as vozes dos demônios machucavam minha mente lentamente, sua voz esmagava minha mente com um golpe que quase me colocava de joelhos, como se houvesse um cachorro preto gigante sobre mim me esmagando com seu peso. Mas a coisa mais assustadora sobre isso é o fato de que se parecia comigo, uma versão sombria de mim.

Uma manhã, entrei no banheiro, sua parede era branca com detalhes em azul, uma pia branca sobre granito, a umidade de um banho recente enchendo o ar e fazendo o banheiro já pequeno parecer ainda menor. Olhei para o espelho em cima da pia e lá estava ela esperando por mim com um sorriso triunfante.

“Você demorou”, disse. “Sentiu minha falta?”

Eu permaneci em silêncio.

“Não vai falar? Combina com você. Sempre um covarde, nunca revidando.”

Eu ainda me recusei a responder.

“Ok, covarde. Eu posso falar. De qualquer forma, nós dois sabemos por que você veio até mim, não é?”

“Do que você está falando?” Eu finalmente perguntei.

“Não finja ignorância. Você veio até mim porque está quebrado e perdido e não sabe o que fazer. “

“Isso não é verdade,” eu disse hesitante, não confiando em uma única palavra que acabei de dizer.

“Você é um péssimo mentiroso, sabe?” disse ela, rindo. “Você está atormentado porque tem tudo, mas ainda se sente vazio. Você tem tudo, mas ainda está triste e não sabe por quê.”

Comecei a tremer enquanto ela continuava.

“E você se sente culpado porque sua tristeza está deixando as pessoas ao seu redor tristes também. Você é um fardo para eles.”

“Co- Como você sabe disso?” Eu disse com a voz vacilante.

“Eu sei tudo sobre você. Tudo,” respondeu, sorrindo. “É por isso que darei a solução.”

“Você irá?”

“Sim. Mas você já sabe o que é.”

“Eu sei?”

“Sim. Está na mesa de cabeceira do seu pai,” disse, quase sussurrando.

Eu congelei de medo e tentação. Eu sabia que a sombra estava falando e era algo que tentava manter fora da minha mente. Mas sempre voltava, tentando-me com uma solução fácil para o problema de todos. Quando algo é um fardo, tudo o que você precisa fazer é…

“Não!” Eu disse, tapando os ouvidos com as mãos. “Isso não está certo.”

“É inútil resistir,” disse. “Você sabe que esta é a única maneira.”

E de repente, eu me vi na escuridão total. Tentei gritar, mas minha voz estava abafada como se eu estivesse me afogando em um oceano escuro. Eu estava sufocando no meio de pensamentos e memórias ruins. O bullying, a depressão, meus fracassos, minha família desfeita, tudo estava tentando me arrastar para mais fundo naquela escuridão. Eu estava quase desistindo.

Mas então um feixe de luz apareceu no meio daquela escuridão, iluminando-me. Da luz surgiram imagens diferentes. Primeiro, meus pais e amigos sempre me apoiavam. Depois, as conversas que tive com minha psicóloga e minha guia espiritual. E por último, diferentes momentos felizes da vida. A pressão que estava sentindo diminuiu um pouco e recuperei o controle da respiração. Eu preciso lutar de volta.

Eu vi o espelho na escuridão e fui em sua direção. Antes que eu pudesse alcançá-lo, as sombras apareceram ao meu redor e me agarraram, me arrastando de volta para a escuridão. Tentei me libertar, mas de repente senti minha garganta sendo pressionada. Era meu nêmesis me estrangulando.

“Você não pode me derrotar,” a sombra disse. “Porque eu sou você.”

Suas palavras me fizeram perceber o que estava faltando. Eu olhei em seus olhos e disse, “Você está certo. Você é parte de mim.”

Ela sorriu.

“Mas é por isso que você não pode me machucar.”

“O que você está dizendo?”

“Vejo agora o que tenho de fazer, ” eu disse. “Eu tenho que aceitar você como parte de mim. Tenho que aceitar minhas sombras, minhas falhas, meus erros, meus problemas. E então atuar sobre cada um para resolvê-los.”

“Você não é forte o suficiente,” disse ela, hesitante. “Eu não vou deixar você!” Ela pressionou minha garganta ainda mais.

Então, com um grito gutural, dei um soco no seu rosto, jogando-a contra o espelho. O espelho rachou e explodiu em cacos, e uma luz branca intensa me cegou. Quando minha visão se normalizou, voltei para o banheiro, sentado no chão com as costas na parede. No entanto, o espelho estava quebrado, seu vidro em volta do chão. E para minha surpresa, tive um corte no punho. O sangue estava se espalhando, caindo no chão. Não muito longe de mim, estava a arma do meu pai, suja de sangue, que caiu meio a cacos de vidro. Eu não sabia o que acontecera, mas mesmo assim estava aliviado e calmo. Porque eu estava livre de novo e não estava mais tudo escuro.


Imagem: https://pxhere.com/pt/photo/710168

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Alexandre Souza

Alexandre Souza é um escritor brasileiro que escreve historias sombrias e sobrenaturais, e também explora fantasia e ficção histórica. Ele está adquirindo um Bacharelado em Belas-Artes em Escrita Criativa na Full Sail University. Ele têm contos publicados na Adelaide Magazine e na Scarlet Leaf Review. Ele é um apaixonado por mitologia e pelo sobrenatural, e usa isso para aprimorar seu trabalho.

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